Índice


Alesy Soares Oliveira e Benigna Ingred Aurelia Bezerril

Alexia Henning e Vanda Fortuna Serafim

Aline Karine Nunes e Tamar Cristina Ludwig

Allef Gustavo Silva dos Santos

Andrisson Ferreira da Silva e Nedy Bianca Medeiros de Albuquerque

Antonio Carlos Figueiredo Costa

Augusto Agostini Tonelli e Letícia da Silva Leite

Auricharme Cardoso de Moura

Camila dos Santos da Costa e João Pedro da Silveira Guimarães 

Carlos Alexandre Souza Prado

Celiana Maria da Silva e Ivaneide Barbosa Ulisses

Cintia Venâncio e Leandra Hellen Assunção Santos

Davison Hugo Rocha Alves

Fabiana Regina da Silva e Rodrigo Luis dos Santos

Fabian Filatow

Felipe Fagundes e Luíza Cozzani

Francisco Lucas Gonçalves dos Reis e Jakson dos Santos Ribeiro 

Frederico Renan Hilgenberg Gomes

Gabriela Harumi Araki e Maria Rita Chaves Ayala Brenha

Henrique Saraiva Louvem e Luara Alencar Francisco

Ilana Peliciari Rocha e Anelise Martinelli Borges de Oliveira

Irineu João Luiz e Silveira Junior

Jacqueline Ferreira Dias e Janaina Mendes da Silva

Jaqueline da Silva de Oliveira e Natália de Noronha Santucci

Jessica Kaline Vieira Santos 

João Gilberto Neves Saraiva

João Matheus Ramos e David Antônio de Castro Netto

José Victor Ferreira Rocha dos Santos e Ana Virginia de Andrade Lima

José Ricardo Paulo de Lima 

Josias José Freire Júnior e Vívian Silva de Medeiros

Letícia da Silva Leite

Lorena Michelle Silva dos Santos e Thaís Vinhas

Marcel Martins Guarezi

Maria Luiza Vasconcelos Fernandes de Oliveira e Nadir Andrade Nascimento 

Maria Talia Cordeiro e Ernando Brito Gonçalves Junior

Maristela Sant’Ana de Oliveira

Mirielen Machado Rodrigues 

Priscielli do Carmo Rozo Cerdeira da Rosa e Ronualdo da Silva Gualiume

Rafael de Jesus Pinheiro Privado

Reuther Henning Machado

Richard Batista Silveira

Ronualdo da Silva Gualiume e Priscielli do Carmo Rozo Cerdeira da Rosa

Ruan David Santos Almeida

Sebastiana Valéria dos Santos Moraes

Tatiana Costa Coelho

Thiago Augusto dos Santos

Vitória Duarte Wingert e Jander Fernandes Martins

Ygor Klain Belchior

Agenor Leandro de Sousa Filho e Krisley Aparecida de Oliveira

 

O ENSINO REMOTO EM TEMPOS DE PANDEMIA: Estratégias de atuação para o ensino de história na educação básica



O ano de 2020 foi marcado por inúmeras mudanças na sociedade brasileira, mudanças essas que foram causadas por elementos externos à população, ocasionando assim em transformações bruscas no mercado de trabalho em diversos segmentos, em especial, no seguimento de educação. Tais mudanças foram decorrentes da decretação de cenário de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020, pelo Novo Corona Vírus causador da COVID-19. Destaca-se que essas modificações tinham por objetivo promover o isolamento social em massa da população para mitigar os impactos da pandemia no cenário econômico, bem como também evitar o colapso dos sistemas de saúde locais.

 

Diante desse contexto, o setor de educação dos níveis básico ao superior, esferas pública e privada, viram-se obrigadas a adotar “novas” estratégias para continuar a promover suas atividades, bem como manter o contato entre docentes e discentes. Após uma série de medidas adotadas pelo Estado via edição de portarias, e resoluções dos Conselhos Nacional e Estaduais de Educação, as instituições de ensino passaram a desenvolver atividades remotas, fomentadas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), disponibilizando aos discentes aulas no formato remoto, a fim de que estes não saíssem prejudicados em termos de aprendizado.

 

A modalidade de ensino remoto tornou a transposição didática realizada pelos docentes desafiadora, em especial, nas disciplinas cujo conteúdo possui cunho mais teórico, como é o caso da disciplina de História. Neste sentido, o presente estudo tem como meta responder o seguinte questionamento: Quais as ações que o docente pode realizar para tornar o ensino de História via TIC, mais dinâmico para os alunos? Para que tal questionamento fosse respondido a contento, este estudo de forma teórica, pretende:

 

Esquematizar metodologias de ensino que o professor pode adotar no processo de ensino/aprendizagem de conteúdo junto aos seus discentes, já de forma específica pretende-se destacar como o uso das TIC podem contribuir para um processo de democratização do ensino e debater como as tecnologias atuam como forma de aproximação e ao mesmo tempo de distanciamento entre docentes e estudantes.

 

Com característica exploratório descritiva, pretende-se proporcionar ao leitor, maior quantidade de informações sobre a temática proposta, e, por conseguinte gerar conhecimento. De cunho qualitativo, tem como procedimentos técnicos de pesquisa a bibliográfica e documental, para tanto foram consultados materiais com temática central voltada para: Metodologias de Ensino, Tecnologias de Informação e Comunicação em Educação, Ensino de História e Ensino remoto.

 

O isolamento social decorrente da pandemia de COVID-19 causada pelo novo Corona vírus, provocou mudanças significativas na sociedade brasileira. Setores como: Serviços, Indústrias, Construção Civil, Agronegócio, e o Educacional, por exemplo, tiveram que adotar um conjunto de medidas que garantissem a segurança de seu quadro de funcionários, e, consequentemente, uma tentativa de mitigação do número de infecções no país.

 

No setor educacional brasileiro, o primeiro documento normatizador que serviu de base legal para a adoção do regime remoto de ensino, foi a medida provisória nº: 934 de 1 de abril de 2020, posteriomente convertida em lei de número 14.040/2020, que dispõem de orientações excepcionais a serem adotadas pelos sistemas de ensino, dos níveis básico ao superior, enquanto perdurar o estado de emergência em saúde causado pela pandemia. Em razão disso, o documento em questão determina que:

 

“Art. 2º Os estabelecimentos de ensino de educação básica, observadas as diretrizes nacionais editadas pelo CNE, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as normas a serem editadas pelos respectivos sistemas de ensino, ficam dispensados, em caráter excepcional:

I – na educação infantil, da obrigatoriedade de observância do mínimo de dias de trabalho educacional e do cumprimento da carga horária mínima anual previstos no inciso II do caput do art. 31 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996;

II – no ensino fundamental e no ensino médio, da obrigatoriedade de observância do mínimo de dias de efetivo trabalho escolar, nos termos do inciso I do caput e do § 1º do art. 24 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, desde que cumprida a carga horária mínima anual estabelecida nos referidos dispositivos, sem prejuízo da qualidade do ensino e da garantia dos direitos e objetivos de aprendizagem, observado o disposto no § 3º deste artigo.

§ 1º A dispensa de que trata o caput deste artigo aplicar-se-á ao ano letivo afetado pelo estado de calamidade pública referido no art. 1º desta Lei.

§ 2º A reorganização do calendário escolar do ano letivo afetado pelo estado de calamidade pública referido no art. 1º desta Lei obedecerá aos princípios dispostos no art. 206 da Constituição Federal, notadamente a igualdade de condições para o acesso e a permanência nas escolas, e contará com a participação das comunidades escolares para sua definição.

[...]§ 4º A critério dos sistemas de ensino, no ano letivo afetado pelo estado de calamidade pública referido no art. 1º desta Lei, poderão ser desenvolvidas atividades pedagógicas não presenciais:

I – na educação infantil, de acordo com os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento dessa etapa da educação básica e com as orientações pediátricas pertinentes quanto ao uso de tecnologias da informação e comunicação;

II – no ensino fundamental e no ensino médio, vinculadas aos conteúdos curriculares de cada etapa e modalidade, inclusive por meio do uso de tecnologias da informação e comunicação, cujo cômputo, para efeitos de integralização da carga horária mínima anual, obedecerá a critérios objetivos estabelecidos pelo CNE.

§ 5º Os sistemas de ensino que optarem por adotar atividades pedagógicas não presenciais como parte do cumprimento da carga horária anual deverão assegurar em suas normas que os alunos e os professores tenham acesso aos meios necessários para a realização dessas atividades.

§ 6º As diretrizes nacionais editadas pelo CNE e as normas dos sistemas de ensino, no que se refere a atividades pedagógicas não presenciais, considerarão as especificidades de cada faixa etária dos estudantes e de cada modalidade de ensino, em especial quanto à adequação da utilização de tecnologias da informação e comunicação, e a autonomia pedagógica das escolas assegurada pelos arts. 12 e 14 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996” (BRASIL, 2020, grifos do autor).

 

A edição de documento normatizador em conjunto com os pareceres emitidos pelo Conselho Nacional de Educação de números CNE/CP nº: 5 e 9/2020 possibilitaram que os sistemas de ensino definissem meios de atuação para o desenvolvimento das atividades de ensino remoto via TIC. Considera-se o uso das TIC para o desenvolvimento de atividades didáticas em sala de aula, como um instrumento inovador, dado o fato de que o emprego dessas ferramentas, indiretamente democratiza o acesso ao ensino. Porém, a transposição didática de conteúdos nesta modalidade de ensino é algo desafiador, pois é necessário que se estabeleça uma metodologia que vá de encontro com as necessidades informacionais do estudante, ou seja, um ensino com equidade, que torne a apresentação do conteúdo dinâmica, e que ao mesmo tempo instigue o discente a participar das aulas.

 

“[…] muitos professores tiveram que fazer adaptações às atividades docentes, por vezes fazendo uso da tecnologia para o ensino remoto, sem necessariamente ter a garantia de que os alunos, ou eles próprios, teriam tais ferramentas à disposição. Há que se destacar, ainda, que a formação docente, em geral, não contempla reflexões (aprofundadas) sobre o ensino não-presencial. Ainda, o contexto do ensino remoto parece intensificar as jornadas de professores que dividem seu tempo entre trabalho, família, casa e outras demandas. Finalmente, recortes de gênero, classe, raça, entre tantos outros reforçam um cenário complexo e estrutural de desigualdades que já fazia parte da realidade escolar [...]” (FARIAS, SILVA, 2020, p. 229).

 

A realidade complexa do sistema educacional brasileiro, torna a atuação docente desafiadora, isto porque, é necessário que este primeiramente tenha acesso as TIC, e, por conseguinte, passe por um processo de treinamento que possa auxiliá-lo sobre como transpor didaticamente os conteúdos da disciplina no ensino remoto. É importante ter em mente que no ensino remoto por ser mediado pelas TIC rompe as barreiras de espaço, proporcionando um distanciamento entre professor e aluno, fazendo com que este tenha maior dificuldade para perceber qual o comportamento do estudante sobre o conteúdo apresentado. Reforçando assim, a necessidade de se estabelecer metodologias de ensino que instiguem o estudante a participar das aulas, ou seja, metodologias que aos poucos possam tornar o estudante protagonista em seu processo de aprendizado.

 

Conforme aponta Circe Fernandes Bittencourt (2018) o ensino de história passou por diversas mudanças ao longo de sua trajetória escolar, o que, corroborando com o fato de que apesar de as TIC já existirem, todavia, não eram tão utilizadas como no formato adotado nesse momento de pandemia.

 

Ainda de acordo com Bittencourt, o ensino de história passa por uma ressignificação que envolve a mudança de postura entre a perspectiva mnemônica “sobre um passado criado para sedimentar uma origem branca e cristã, apresentada por uma sucessão cronológica de realizações de ‘grandes homens’” (2018, p. 127) para uma nova disciplina, com seus paradigmas metodológicos, que tentam incorporar uma multiplicidade de outros sujeitos construtores da nação, como é o caso do ensino de história da África e da cultura afro-brasileira, dos povos indígenas e das mulheres.

 

Sendo assim, se a própria metodologia do ensino de história vem passando por atualizações constantes em busca de melhor explicar e dar sentidos, o que já é considerado um desafio em aulas presenciais, no contexto do ensino remoto, este cenário que se coloca em relação ao ensino de história dentro da perspectiva semelhante à modalidade de educação à distância, torna a missão de ensinar ainda mais desafiadora.

 

Isléia Streit (2010), destaca que se o professor no decorrer de seu processo formativo, no curso de licenciatura, tiver contato com as vantagens e possibilidades que as TIC’s oferecem, ele certamente, em sua prática pedagógica, enquanto docente, posteriormente, terá maiores condições de estimular os alunos na construção de saberes em sala de aula, tornando esta aula mais dinâmica,  em relação não apenas em como utilizar as TIC’s em sala de aula, mas no conteúdo que está sendo ministrado.

 

De acordo com a autora, em uma pesquisa feita tendo como base geográfica a região Sul do país, onde é realizada uma investigação acerca das instituições de ensino superior da região que ofertam cursos de licenciatura em História na modalidade EaD, observou-se que nessas instituições é fomentada uma cultura do EaD nos gestores, professores, pesquisadores e alunado, o que contribui para propriciar novas e diversas práticas de ensino que são características dessa modalidade: “Dessa forma, as ações de Educação a Distância implementadas, devem criar o perfil docente e discente apto para ensinar e aprender com qualidade nesse desafiante cenário educacional ao qual estamos inseridos” (STREIT, 2010, p. 10).

 

Sendo assim, tomando como base o referido estudo para discussão sobre a implementação do EaD, podemos pensar de maneira crítica a relação entre o ensino de história, o contexto de pandemia e as TIC’s, uma vez que, o ensino à distância está regulamentado no Brasil desde o fim da década de 1990 e os esforços para que essa modalidade de ensino fosse cada vez mais difundida e que os professores possuíssem formação específica para lidar com esse modelo de ensino/aprendizagem já são antigos.

 

Todavia, apesar dessa modalidade de ensino não ser relativamente nova, é necessário ponderarmos que, a educação presencial, em todos os níveis, do básico ao superior, ainda é massiva. E por vezes, existe preconceito em relação ao EaD, com noções e perspectivas de que o ensino à distância não possui a mesma qualidade que o presencial.

 

Devemos levar em consideração ainda, que o momento de pandemia e medidas como as citadas inicialmente, não estão dentro de uma matriz fundamentada do EaD, mas sim dentro de um contexto de ensino remoto, não possuindo o mesmo planejamento do EAD. Portanto, o ensino remoto, nos moldes aos quais se faz presente, é uma adaptação da educação presencial para que professor e aluno não sejam prejudicados no decorrer do ano letivo. Porém, é importante observar que pelo fato de vivermos em uma sociedade marcada pela forte desigualdade social, nem todos indivíduos possuem acesso as TIC’s, e, por conseguinte, acesso à internet. Fato este que torna a imposição do ensino na modalidade remota mesmo em tempos críticos para a Educação algo restritivo, pois desta forma o acesso à educação acaba sendo destinado apenas para quem possui acesso as TIC’s e à internet indo contra um dos preceitos da Constituição Federal de 1988 que é o de equidade no acesso à educação.

 

É certo que muitas instituições de ensino, principalmente as da rede privada, já conseguiram se adaptar melhor e preparar seu corpo docente para tais atividades, todavia, não é o que ocorre na maior parte do país. De acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas, onde foram ouvidos professores(as) da educação básica de todas as 27 unidades da federação entre abril e maio de 2020, 65% dos entrevistados afirmam que o trabalho pedagógico aumentou ou mudou, principalmente envolvendo interfaces e ferramentas digitais.

 

Em meio ao contexto pandêmico, é fundamental ressaltar o papel do professor enquanto agente de transmissão de informações, e, por conseguinte de auxíliador ao estudante na construção de conhecimento. Não sendo aquele que detém todas as respostas ou a “verdade absoluta”, mas um agente que precisa, de antemão, se antecipar e preparar pressupostos e dinâmicas de ensino/aprendizagem que deverão fomentar a aula no sentido de trazer dinamicidade e interesse dos alunos.

 

Para isso, no ensino de História, podemos destacar ferramentas que podem ser úteis, algumas que já eram exploradas no ensino no presencial, como é o caso da utilização de filmes em sala, para tratar de temas históricos e marcantes. Com ferramentas como o Google Meet, plataforma que está sendo amplamente utilizada em reuniões e encontros síncronos, por permitir a transmissão de vídeos e áudios em alta qualidade, quando utiliza-se a aba “Uma guia do Chrome”. Ou até mesmo utilizar o aplicativo Rave, disponibilizado para aparelhos celulares, que propicia a projeção de filmes em tempo real, em salas, com possibilidade de debate e interação.

 

O Look História é um aplicativo que pode auxiliar os alunos para retirarem dúvidas para além das aulas, nele os alunos encontram pequenos vídeos explicativos, que dividem os períodos históricos permitindo ao estudante consultar aquele que tiver interesse. Outro aplicativo também gratuito e muito interessante é o Presidentes do Brasil, que disponibiliza informações sobre todos os presidentes que o país já teve, anos de mandato e as principais características do governo.

 

Outra ferramenta que vem sendo utilizada e pode dinamizar as aulas em relação as atividades propostas pelo docente é o Kahoot, que permite o professor criar seu próprio quiz em forma de jogo para que os alunos possam se divertir e, ao mesmo tempo, fixar o conteúdo ministrado em aula, a ferramenta pode ser utilizada pelo  docente em uma aula síncrona, ou, de maneira assíncrona.

 

Seguindo essa mesma linha de ferramentas utilizadas para a verificação de aprendizagem, temos o App Prova, que contém diversas provas do Enem e de vestibulares de todo o país. Nele o estudante pode realizar testes, ver como está seu desempenho diante dos demais concorrentes e, ainda oferece uma análise acerca dos conteúdos que ele deverá ser estudar mais.

 

Uma maneira de diversificar o ensino/aprendizagem na disciplina de História também, é utilizar as visitas guiadas aos locais patrimoniais, culturais e turísticos do contexto local ou regional, apresentando aos estudantes a experiência do conhecimento da história dos locais aos quais estão inseridos. Pode-se, por exemplo, passar os links dos museus para que os estudantes conheçam as instalações, mostras e etc., inúmeros museus disponibilizaram tours on-line em 360º, sendo possível escolher o cômodo e visualizar os objetos presentes. Em relação ao ensino regional, também há a possibilidade do uso de imagens históricas dos locais importantes nas cidades, disponibilizadas em acervos públicos on-line e a comparação dos espaços atualmente, para instigar os alunos a pensarem a questão espacial e a modernização.

 

Há outras ferramentas gratuitas que auxiliam o docente no processo de preparação e disponibilização das aulas, como a ferramenta Google Meet, para as aulas síncronas. O Google Classroom (ou, Google Sala de Aula) que possibilita a disponibilização de matérias como textos, arquivos com slides, vídeos e etc., permitindo também que o estudante responda e poste atividades, facilitando a organização do professor. O Google Forms (ou, Google Fomulários) que permite a criação de formulários, com possibilidade de perguntas com múltipla escolha, escolha única e também respostas dissertativas.

 

Outra ferramenta que auxilia na organização e no preparo das aulas, bem como no processo comunicativo é o ClassDojo, que possibilita a comunicação entre professores, alunos, pais e gestores escolares. Nele o professor pode criar comunidades com os alunos e registrar os bons momentos deles em sala de aula, compartilhando essas experiências com os pais.

 

O que pode também ser utilizado tanto no auxílio para a comunicação mais rápida com os alunos, quanto para encaminhar atividades, textos e vídeos não tão longos, é o WhatsApp. A criação de grupos das turmas, seja com os alunos, seja com os responsáveis, dinamiza a ação comunicativa entre docente e discente permitindo melhor interação.

 

Sendo assim, existem ferramentas, desde as mais simples e popularizadas para o uso em outras ocasiões, até as especializadas, que podem auxiliar o professor nesse novo processo de ensino/aprendizagem, lembrando, claro, como já exposto ao início do texto, que a educação está sempre em movimento e é necessário que as práticas pedagógicas sejam sempre atualizadas. E ponderando também que nesse contexto de pandemia, com inúmeras dificuldades tanto para os alunos quanto para os professores, desde o acesso a redes de internet de qualidade até o processo de capacitação dos profissionais da educação, esse modelo de aulas remotas se coloca enquanto um desafio a ser superado. Ou, se não superado, ao menos analisado com maior atenção e cuidado, para que estudantes e professores não adoeçam na tentativa de alcançar um padrão que ainda não está bem-posto no horizonte da educação.

 

Referências biográficas

Agenor Leandro de Sousa Filho, Mestre em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), graduando em Licenciatura em História pela Universidade de Taubaté (Unitau) e em Ciências Sociais pela Universidade Regional do Cariri (URCA).

 

Mestra Krisley Aparecida de Oliveira, Professora de História da Universidade Estadual de Goiás – Campus Sudoeste (UEG), Doutoranda em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestra em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Especialista em História e Narrativas Audiovisuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e licenciada/bacharela em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

 

Referência bibliográficas

BITTENCOURT, Circe Fernandes. Reflexões sobre o ensino de História. Estudos Avançados, São Paulo, v. 32, n. 93, p. 127-149, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ea/v32n93/0103-4014-ea-32-93-0127.pdf Acesso em: 20 fev. 2021

 

BRASIL, Lei 14.040 de 18 de Agosto de 2020. Estabelece normas educacionais excepcionais a serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020; e altera a Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009. Brasília: Presidência da República, 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.040-de-18-de-agosto-de-2020-272981525 Acesso em: 23 fev. 2021

 

BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer CNE/CP Nº:5/2020. Reorganização do Calendário Escolar e da possibilidade de cômputo de atividades não presenciais para fins de cumprimento da carga horária mínima anual, em razão da Pandemia da COVID-19. Brasília, DF: Conselho Nacional de Educação, 2020. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=14511-pcp005-20&category_slud=marco-2020-pdf&Itemid=30192 Acesso em: 22 fev. 2021

 

BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer CNE/CP Nº:9/2020. Reexame do Parecer CNE/CP nº 5/2020, que tratou da reorganização do Calendário Escolar e da possibilidade de cômputo de atividades não presenciais para fins de cumprimento da carga horária mínima anual, em razão da Pandemia da COVID-19. Brasília, DF: Conselho Nacional de Educação, 2020. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=147041-pcp009-20&category_slug=junho-2020-pdf&Itemid=30192 Acesso em: 22 fev. 2021

 

FARIAS, P. F.; SILVA, L. Ensino em tempos críticos: a criação de um podcast para a promoção do diálogo crítico docente no contexto da pandemia de COVID-19. AtoZ: novas práticas em informação e conhecimento. Curitiba, v. 3, n. 2, p. 229-233, 2020. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/atoz/article/download/76147/42602 Acesso em: 12 fev. 2021

 

STREIT, Isléia Rössler. A formação do professor de história e as tecnologias da informação e da comunicação (TICS). In: X ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: O BRASIL NO SUL, CRUZANDO FRONTEIRAS ENTRE O NACIONAL E O REGIONAL. 2010, Santa Maria – RS. Anais eletrônicos do Encontro Estadual de História. Disponível em: http://www.eeh2010.anpuh-rs.org.br/resources/anais/9/1279112989_ARQUIVO_artigoXencontrodehistoria.pdf Acesso em: 22 fev. 2021.

 

Villas Bôas, Lúcia; Unbehaum, Sandra. Educação escolar em tempos de pandemia. Fundação Carlos Chagas, 2020. Disponível em: https://www.fcc.org.br/fcc/wp-content/uploads/2020/06/educacao-pandemia-a4_16-06_final.pdf Acesso em: 22 fev. 2021.

Alesy Soares Oliveira e Benigna Ingred Aurelia Bezerril

 

WATCHMEN: O USO DO QUADRINHO COMO RECURSO DIDÁTICO NO ENSINO DE HISTÓRIA

 

O presente trabalho tem como objetivo apresentar algumas potencialidades do uso de história em quadrinhos no ensino-aprendizagem de História. Para isso, apresentaremos algumas considerações sobre ensinar História em diálogo com o recurso didático selecionado, assim como iremos apresentar algumas possibilidades de assuntos que podem ser abordados a partir de Watchmen. Este trabalho foi pensado a partir da experiência na disciplina de Seminário da Linha de Pesquisa III do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Na mencionada disciplina, vêm sendo analisadas e discutidas as experiências históricas e artísticas na produção de Alan Moore.

 

Embaixo do capuz de Alan Moore

Alan Moore nasceu na Inglaterra em 1953. Ele iniciou sua carreira com histórias em quadrinhos no final dos anos 1970. Ele foi autor de obras como V de Vingança, Monstro do Pântano, A Liga Extraordinária, Watchmen, Neonomicon, Batman – A Piada Mortal dentre outras.

 

A narrativa da obra Watchmen se passa no ano de 1985. Os Estados Unidos se encontram enquanto uma nação totalitária e fechada, isolada do resto do mundo, como está referido em seu texto de apresentação.  Com o avanço das forças bélicas contidas nas figuras das armas nucleares, assim como também os super-heróis, o jogo político será recheado entre as superpotências mundiais. A HQ tem seu início com a visão de Rorschach, um outrora herói, que investiga a morte do seu colega de profissão, o Comediante. A partir disso, a narrativa caminha sobre as figuras das duas gerações de heróis mascarados que expressam suas angústias e abstrações com o pano de fundo da Guerra Fria e conflitos envolvendo seus lugares no mundo, que se mostra cru e inóspito pelas lentes de Alan Moore.

 

Watchmen é uma História em quadrinhos, muitas vezes considerada como novela gráfica numa pretensa tentativa de diferenciação, que em todos os casos, foi arrebatadora para sua geração e mais ainda para a linguagem dos quadrinhos. O seu texto aborda o país Estados Unidos, em situação de distopia, com caminhos diferentes acerca da Guerra Fria, arranjado em um mundo de super-heróis. Nesse ambiente, os heróis estão em decadência e seus papéis na sociedade são questionados. A presença de subtextos dialogando com temas do mais diversos é uma característica das obras de Alan Moore que consegue em uma página tratar sobre discussões entre política, metafísica ou mesmo esoterismo, com uso de linguagens auxiliares como contos, matérias de jornais ou romance, tudo isso infundido em uma narrativa densa e adulta com temas bastante caros à nossa sociedade atual e com um final apoteótico e clássico de nascença.

 

Resumir a obra de Watchmen é uma tarefa difícil, pois seria quase inevitável deixar de tratar pontos caros ao objetivo presente neste texto. Dessa forma, assumindo essa característica, a direção do olhar será pautada nas possibilidades de usos no ensino de História a partir das referências presentes na obra supracitada.

 

Mediante o trabalho com as obras de Moore, aprofundamos especialmente os estudos acerca de Watchmen, pois escolhemos tal obra para desenvolvermos um trabalho na disciplina. A partir das discussões sobre Watchmen durante as aulas, nasceu a ideia de pensar a presente proposta de ensino-aprendizagem em História. Aqui, podemos ressaltar a importância da aproximação dos conhecimentos produzidos na academia com o ensino básico. É pertinente pensar, ainda, na importância da experiência que tivemos com o Programa Residência Pedagógica nos anos de 2018 a 2020, quando ainda éramos graduandos em História. Hoje, incentivados pelo professor da já mencionada disciplina da pós-graduação e pela trajetória no Residência Pedagógica, damos ênfase no objetivo de cada vez mais colaborar com a aproximação desses espaços.

 

Os quadrinhos como recurso didático no ensino de História

Ao traçar a trajetória da aproximação das histórias em quadrinhos em sala de aula, Douglas Lima indica que para além de iniciativas voltadas para a linguagem dos quadrinhos do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), as quais não objetivamos adentrar no presente trabalho, mas que são de grande importância para a aproximação, “cabe lembrar outros fatores que também contribuíram para tal cenário. Primeiramente, a crescente presença dos quadrinhos no meio acadêmico” (LIMA, 2017, p. 152). Podemos afirmar a pertinência da colocação de Lima, pois, como já comentado, trabalhar história em quadrinhos no meio acadêmico nos deu impulso para pensar a presente proposta para a sala de aula do ensino básico e esperamos poder colocá-la em prática em breve ou colaborar para que outros colegas possam utilizar tal recurso didático.

 

Destacamos, também, a importância de pensar a faixa-etária do público o qual pode-se destinar o uso de tal obra. Pensamos na utilização de Watchmen em aulas do ensino médio ou na Educação para Jovens e Adultos (EJA).

 

Por que usar história em sala de aula? Como esse recurso didático pode contribuir com a construção de saberes históricos? Quais são as suas potencialidades? Primeiramente, é essencial pensarmos que ao elegermos um recurso didático, é imprescindível que o professor domine o conteúdo sobre o qual dará aula, pois:

 

 “Os recursos didáticos são apenas auxiliares no processo de ensino-aprendizagem [...] cabe salientar que os recursos em si não são eficientes ou ineficientes, pois para atribuirmos essas características aos recursos, depende da forma como eles serão utilizados pelo professor” (BRITO, 2003, p. 19).

 

Douglas Lima aponta que as histórias em quadrinhos possibilitam que os estudantes demonstrem maior motivação em relação aos conteúdos de determinada matéria escolar, ajudam no desenvolvimento do senso crítico e da leitura de texto e imagem, contribuem para o aumento ou criação de um hábito de leitura dentre outras potencialidades. No ensino de História, Lima indica que nas últimas décadas a utilização das histórias em quadrinhos tem se efetivado gradualmente. Para o autor, isso se deve, especialmente, devido à noção plural de fontes no meio historiográfico e pela abertura de utilização de novas linguagens no espaço escolar (LIMA, 2017).

 

Além das próprias HQs que são produzidas objetivando tratar de fatos históricos e exercer papel educativo, há a possibilidade trabalhar os quadrinhos produzidos para outros fins, mas que com o direcionamento e auxílio de outros materiais, até mesmo do livro didático, podem ganhar forma de recurso didático em sala de aula. Para isso, podemos lançar perguntas externas à narrativa da história em quadrinhos: quem a escreveu? Quando foi lançada? Podemos traçar o perfil de seu autor e levantar hipóteses das possíveis influências políticas e sociais e de como tais elementos podem emergir em personagens e enredos ficcionais das histórias em quadrinhos. É pertinente investigar e discutir com o estudante o contexto externo das histórias em quadrinhos, pois, como indica Keliene Silva as HQs são: “portadoras de discursos carregados de intencionalidades dos grupos onde são produzidos, assim como buscam canal de diálogo com o público que pretendem atingir” (SILVA, 2016, p. 148).

 

Acerca do fazer histórico e pedagógico em sala de aula, um dos desafios apontados por Maria Schmidt é o de realizar a transposição didática dos conteúdos e métodos históricos. A transposição didática do saber histórico, dentre outros aspectos, indica

 

"procedimentos para que se trabalhe a compreensão e a explicação histórica. [...] Destacam-se a problematização, o ensino e a construção de conceitos, a análise causal, o contexto temporal e o privilégio da exploração do documento histórico” (SCHMIDT, 2004, p. 59).

 

Considerando esses elementos da construção do saber histórico em sala de aula, ao abordar Watchmen é pertinente problematizar a obra. A problematização histórica pode ser dada pela pergunta mais simples lançada ao objeto de estudo como, por exemplo, “onde?”, “quando?”, “por que?”. Além disso, o contexto temporal indica pensar o momento no qual a obra em questão foi criada, considerando até mesmo o perfil do autor. Essas buscas podem ser auxiliadas com livro didático que tenha textos sobre o mundo após a Segunda Guerra Mundial, assim como o professor pode trazer texto de apoio e pedir pesquisas sobre determinados assuntos que possibilitem a apropriação da obra por parte dos estudantes, sua análise e possibilidade de responder às perguntas lançadas.

 

Coordenando essa discussão no ambiente escolar, Douglas Lima trata sobre a ampliação do uso dos quadrinhos em sala de aula. Ele faz um pequeno balanço do histórico que os quadrinhos enfrentaram com críticas e resistências desenvolvidas ao longo do século XX, no qual conseguiram resistir, afastando-se do ideário limitador que compreende essa linguagem como leitura exclusiva de crianças para serem entendidos como forma de entretenimento de diversos públicos. Quanto ao campo da educação, o movimento de aceitação e incorporação dos quadrinhos foi consolidado ao final do século XX ganhando mais força desde então (LIMA, 2017).

 

Lima, ao citar Vergueiro (2014), considera que na discussão em relação aos usos dos quadrinhos em sala de aula existem muitas práticas fortuitas que possibilitam uma boa condução da aula:

 

“As HQs aumentam a motivação dos estudantes para o conteúdo das aulas, aguçando a curiosidade e desafiando seu senso crítico; a interligação do texto com a imagem, presente nas HQs, amplia a compreensão de conceitos de uma forma que qualquer um dos códigos, isoladamente, teria dificuldades para atingir; as HQs versam sobre os mais diferentes temas, sendo facilmente aplicáveis em qualquer área, além de apresentarem uma linguagem mais assimilável; a inclusão dos quadrinhos na sala de aula possibilita ao estudante ampliar seu leque de meios de comunicação, incorporando a linguagem gráfica à linguagem oral e escrita, que normalmente utiliza; os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento do hábito de leitura; os quadrinhos enriquecem o vocabulário dos estudantes; o caráter elíptico da linguagem dos quadrinhos obriga o leitor a pensar e imaginar, tornando as HQs especialmente úteis para exercícios de compreensão de leitura e como fontes para estimular os métodos de análise e síntese de mensagens; os quadrinhos têm caráter globalizador, trazem temáticas que têm condições de ser compreendidas sem necessidade de um conhecimento prévio específico ou da familiaridade com o tema; os quadrinhos podem ser utilizados em qualquer nível escolar e com qualquer tema” (apud LIMA, 2017, p. 152).

 

Vilela considera que as HQs podem ser usadas como documentos históricos no sentido de que elas são artefatos culturais. Sua característica funciona enquanto uma narrativa, mais predominantemente visual e, embora também se utilizem de textos:

 

 “Devido a supremacia do texto, que ainda persiste no meio acadêmico, e também no ensino de História na Educação Básica, ainda existe algum preconceito em relação a linguagem imagética parte de alguns historiadores e também certo receio por parte de professores de história, pois a formação da maioria deles ainda não contempla uma educação do olhar e enfatiza ainda a leitura de textos, sejam eles historiográficos, didáticos ou fontes escritas em geral” (VILELA, 2012, p. 33).

 

A obra Watchmen, com os devidos apoios didáticos, pode também possibilitar a construção de conceitos junto aos estudantes. A partir de análises considerando os elementos citados anteriormente, conceitos podem ser abordados em sala de aula com a devida participação do alunado na construção e na apropriação dos tais. Por fim, também apontamos a análise causal como elemento pertinente e possível ao trabalhar a obra de Alan Moore no ensino básico. Como aponta Schmidt:

 

“Sem perder de vista a complexidade dessa questão [da análise causal], é importante possibilitar aos alunos compreensão de que os acontecimentos históricos não podem ser explicados de maneira simplista. [...] Muito mais que as determinações causais, é importante levar o educando à compreensão das mudanças e permanências, das continuidades e descontinuidades” (SCHMIDT, 2004, p. 60).

 

Partindo da análise causal e da consideração de relações de mudanças e permanências e das continuidades e descontinuidades, ao eleger Watchmen como recurso didático no ensino de História, faz-se importante buscar a explicação de determinados contextos de forma plural, buscando compreender determinados fatos históricos a partir de causalidades encadeadas. Além disso, a obra possibilidade abordar contextos históricos sobre os quais rupturas e continuidades, por exemplo, podem ser colocadas em análise, como é o caso do papel feminino no século XX, considerando as ondas do movimento feminista, a influência do contexto pós-guerra dentre outros elementos. E é sobre este assunto que vamos nos deter brevemente a seguir.

 

Possibilidades Didáticas em Watchmen

Lançada entre os anos de 1986 e 1987, Watchmen se passa em uma realidade alternativa do nosso planeta. Segundo Ícaro Silva, a HQ foi criada em um contexto em que:

 

 “Os Estados Unidos vivem um dos momentos mais tensos e conturbados de sua história, decorrentes de uma política doméstica equivocada, nos tempos da Guerra Fria, com pouca atenção aos ditos ‘problemas de casa’ e muito foco na situação internacional” (SILVA, 2019, p. 31).

 

A realidade paralela da obra funde ficção e realidade, sendo sua narrativa desdobrada tendo como pano de fundo eventos históricos, assim como tendo personagens criados a partir de gatilhos históricos, “sendo assim, sob uma constante ameaça de guerra nuclear e toda desordem durante o período da Guerra Fria, diversas manifestações sociais protagonizadas por minorias ocorreram no mundo”. (SILVA, 2019, p. 31)

 

Mediante tal contexto, apontamos aqui a presença dos movimentos sociais como pano de fundo da obra. A exemplo disso, o movimento feminista pode ser elencado para pensar algumas narrativas criadas por Moore.

 

 


Fonte: MOORE, Alan. Watchmen. São Paulo: Editora Abril, 1999.

 

O que uma cena, um cartaz e um diálogo aparentemente despretensiosos em Watchmen podem nos contar? O período da Guerra Fria também foi perpassado por construções da imagem feminina. Nos Estados Unidos da América, a imagem da mulher dona de casa, do padrão de beleza e de comportamento feminino e a exploração de seus corpos era valorizado e difundido pelos mais diferentes meios de comunicação. Longe de ser o primeiro momento de reivindicação dos direitos das mulheres, o pós-guerra trouxe manifestações feministas que lutavam por direitos relacionados ao corpo, à sexualidade, à inserção no mercado de trabalho dentre outras pautas.

 

Nesse contexto do pós-guerra, que também é quando Watchmen é criada, surge a segunda onda dos movimentos feministas. Entre os anos de 1960 e 1980, dos movimentos feministas começaram a emergir novas reivindicações. Anteriormente, as demandas diziam respeito à desigualdade de direitos políticos dentre outras desigualdades sociais, a partir de então, passou-se a questionar o motivo pelo qual essas assimetrias de gênero ocorriam na sociedade. Com isso, como indica Melanie Marques e Kella Xavier:

 

 “Podemos perceber que o movimento feminista, na segunda onda, passa a abordar pautas relacionadas à opressão da mulher, a sexualidade, a construção cultural de gênero e dominação. O discurso agora estava focado nas relações de poder entre homens e mulheres, debatendo sobre questões de discriminação, desigualdades culturais e estruturas sexistas”. (MARQUES; XAVIER, 2018, p. 5)

 

Em relação a isso, o período de guerra era cheio de expectativas, sendo um país cujas imagens mentais formadas ao longo do fim da década de 1940 e início da década de 1950 eram exclusivamente masculinas, como aponta Ícaro Silva, pensando na ótica da masculinidade presente no período histórico referenciado em Watchmen:

 

“Aos homens, heróis no front europeu, todas as recompensas eram poucas. Linhas de crédito para compra de imóveis e para estudos em universidades, assim como a garantia de pleno emprego, pois os postos ocupados pelas mulheres na ausência bélica masculina voltaram a ter seus antigos donos, relegando às então independentes figuras femininas o retorno ao espaço doméstico. Era natural, portanto, que os jovens das gerações seguintes fossem educados para continuarem a ser a cidade sobre a colina que liderava o progresso do mundo” (SILVA, 2019, p. 24).

 

Com o crescimento dos movimentos civis ao fim da década de 1950 e início da década de 1960, um boom do grito de resistência dos marginalizados ecoa. Assim, os movimentos sociais que apareceram de fundo em Watchmen podem ser canalizados à prática de ensino pela sua característica de artefato cultural e entre outros efeitos positivos citados acima correspondentes ao uso de quadrinhos em sala de aula. Coben destaca sobre os movimentos:

 

“As características distintivas do Movimento emergem de uma preocupação central com a autenticidade pessoal e com o corolário da convicção de que as estruturas do poder social, o consenso ideológico liberal e o mecanismo cultural formavam múltiplos obstáculos à auto-realização e à comunidade. A busca da realização acentua variedades de desacordo e protesto - silenciosos e veementes, públicos e privados, não violentos e violentos, pessoais e culturais, reformistas e revolucionários” (COBEN, 1985, p.335 e 336).

 

Enquanto isso, as mulheres reagiram prontamente às novas oportunidades disponíveis para elas no mercado de trabalho e também passaram a atuar com mais voz na sociedade estadunidense, ocupando um espaço que antes não estavam familiarizadas, possibilitando um contraponto a realidade estabelecida na mesma no Brasil ou mesmo em tempos atuais.

 

Considerações Finais

Em Watchmen podemos considerar uma gama variada de temas, percorrendo em um sentido mais histórico tanto pelos temas dos movimentos sociais e de contracultura como a discussão dos papéis de gênero ou mesmo a temática da violência nos grandes centros. As histórias em quadrinhos podem ser uma importante ferramenta para o incentivo da leitura e também uma possibilidade didática para o professor de História fortalecer o pensamento histórico e para o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. A partir da leitura das considerações que fizemos neste texto, esperamos poder ter contribuído para as discussões sobre o uso de histórias em quadrinhos em sala de aula, assim como a escolha por trazer Watchmen possa colaborar com o desenvolvimento de propostas com outras HQs enquanto recurso didático no ensino de História.

 

Referências

Alesy Soares Oliveira, graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História pela mesma universidade.

 

Benigna Ingred Aurelia Bezerril, graduada em História Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História pela mesma universidade.

 

BRITO, Ana Lúcia Morais de. O ensino de história: outros recursos além do livro didático. 2003. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2003.

 

COBEN, Stanley. O desenvolvimento da cultura norte-americana. Rio de Janeiro: Anima Produções Artísticas e Culturais, 1985.

 

LIMA, Douglas Mota Xavier de. História em quadrinhos e ensino de História. Revista História Hoje, [S.L.], v. 6, n. 11, p. 1-344, 16 maio, 2017.

 

MARQUES, Melanie Cavalcante; XAVIER, Kella Rivetria Lucena. A gênese do movimento feminista e sua trajetória no Brasil. In: VI Seminário CETROS Crise e Mundo do trabalho no Brasil: desafios para a classe trabalhadora. Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2018.

 

SCHMIDT, Maria Auxiliadora. A formação do professor de História e o cotidiano da sala de aula. In: BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na sala de aula. 9 ed. São Paulo: Contexto, 2004.

 

SILVA, Ícaro Andriêr Soares da. A construção da ideia de masculinidade como falha cultural na sociedade estadunidense em Watchmen. 2019. 50 f. TCC (Graduação) - Curso de Licenciatura Plena em Letras/Inglês, Linguagens e Ciências Humanas, Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Caraúbas, 2019.

 

SILVA, Keliene Cristina da. História em quadrinhos e ensino de História: diálogos e abordagens. XVII Encontro Estadual de História – ANPUH-PB, 2016. e-ISSN: 2359-2796. Disponível em: <http:// www.ufpb.br/evento/index. php/xviieeh/xviieeh/paper/ view/3229>. Acesso em: 24 de abr. de 2021.

 

VILELA, Marcos Túlio Rodrigo. A utilização dos quadrinhos no ensino de história: avanços, desafios e limites. 2012. 322 f. Dissertação (Mestrado) - Mestrado em Educação, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2012.