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Agenor Leandro de Sousa Filho e Krisley Aparecida de Oliveira
O ENSINO REMOTO EM TEMPOS DE PANDEMIA: Estratégias de atuação para o ensino de
história na educação básica
O ano de 2020 foi marcado por inúmeras mudanças na
sociedade brasileira, mudanças essas que foram causadas por elementos externos
à população, ocasionando assim em transformações bruscas no mercado de trabalho
em diversos segmentos, em especial, no seguimento de educação. Tais mudanças
foram decorrentes da decretação de cenário de pandemia pela Organização Mundial
de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020, pelo Novo Corona Vírus causador da
COVID-19. Destaca-se que essas modificações tinham por objetivo promover o
isolamento social em massa da população para mitigar os impactos da pandemia no
cenário econômico, bem como também evitar o colapso dos sistemas de saúde
locais.
Diante desse contexto, o setor de educação dos níveis
básico ao superior, esferas pública e privada, viram-se obrigadas a adotar
“novas” estratégias para continuar a promover suas atividades, bem como manter
o contato entre docentes e discentes. Após uma série de medidas adotadas pelo
Estado via edição de portarias, e resoluções dos Conselhos Nacional e Estaduais
de Educação, as instituições de ensino passaram a desenvolver atividades
remotas, fomentadas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC),
disponibilizando aos discentes aulas no formato remoto, a fim de que estes não
saíssem prejudicados em termos de aprendizado.
A modalidade de ensino remoto tornou a transposição
didática realizada pelos docentes desafiadora, em especial, nas disciplinas
cujo conteúdo possui cunho mais teórico, como é o caso da disciplina de
História. Neste sentido, o presente estudo tem como meta responder o seguinte
questionamento: Quais as ações que o docente pode realizar para tornar o ensino
de História via TIC, mais dinâmico para os alunos? Para que tal questionamento
fosse respondido a contento, este estudo de forma teórica, pretende:
Esquematizar metodologias de ensino que o professor pode
adotar no processo de ensino/aprendizagem de conteúdo junto aos seus discentes,
já de forma específica pretende-se destacar como o uso das TIC podem contribuir
para um processo de democratização do ensino e debater como as tecnologias
atuam como forma de aproximação e ao mesmo tempo de distanciamento entre
docentes e estudantes.
Com característica exploratório descritiva, pretende-se
proporcionar ao leitor, maior quantidade de informações sobre a temática
proposta, e, por conseguinte gerar conhecimento. De cunho qualitativo, tem como
procedimentos técnicos de pesquisa a bibliográfica e documental, para tanto
foram consultados materiais com temática central voltada para: Metodologias de
Ensino, Tecnologias de Informação e Comunicação em Educação, Ensino de História
e Ensino remoto.
O isolamento social decorrente da pandemia de COVID-19
causada pelo novo Corona vírus, provocou mudanças significativas na sociedade
brasileira. Setores como: Serviços, Indústrias, Construção Civil, Agronegócio,
e o Educacional, por exemplo, tiveram que adotar um conjunto de medidas que
garantissem a segurança de seu quadro de funcionários, e, consequentemente, uma
tentativa de mitigação do número de infecções no país.
No setor educacional brasileiro, o primeiro documento
normatizador que serviu de base legal para a adoção do regime remoto de ensino,
foi a medida provisória nº: 934 de 1 de abril de 2020, posteriomente convertida
em lei de número 14.040/2020, que dispõem de orientações excepcionais a serem
adotadas pelos sistemas de ensino, dos níveis básico ao superior, enquanto
perdurar o estado de emergência em saúde causado pela pandemia. Em razão disso,
o documento em questão determina que:
“Art. 2º Os estabelecimentos de ensino
de educação básica, observadas as diretrizes nacionais editadas pelo CNE, a
Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as normas a serem editadas pelos respectivos
sistemas de ensino, ficam dispensados, em caráter excepcional:
I – na
educação infantil, da obrigatoriedade de observância do mínimo de dias de
trabalho educacional e do cumprimento da carga horária mínima anual previstos
no inciso II do caput do art. 31
da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996;
II – no
ensino fundamental e no ensino médio, da obrigatoriedade de observância do
mínimo de dias de efetivo trabalho escolar, nos termos do inciso I do caput e do § 1º do art. 24 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro
de 1996, desde que cumprida a carga horária mínima anual
estabelecida nos referidos dispositivos, sem prejuízo da qualidade do ensino e
da garantia dos direitos e objetivos de aprendizagem, observado o disposto no §
3º deste artigo.
§ 1º A
dispensa de que trata o caput deste artigo aplicar-se-á ao ano letivo
afetado pelo estado de calamidade pública referido no art. 1º desta Lei.
§ 2º A
reorganização do calendário escolar do ano letivo afetado pelo estado de
calamidade pública referido no art. 1º desta Lei obedecerá aos princípios
dispostos no art. 206 da Constituição Federal, notadamente a igualdade de
condições para o acesso e a permanência nas escolas, e contará com a
participação das comunidades escolares para sua definição.
[...]§
4º A critério dos sistemas de ensino, no ano letivo afetado pelo estado de
calamidade pública referido no art. 1º desta Lei, poderão ser desenvolvidas
atividades pedagógicas não presenciais:
I – na
educação infantil, de acordo com os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento
dessa etapa da educação básica e com as orientações pediátricas pertinentes
quanto ao uso de tecnologias da informação e comunicação;
II – no
ensino fundamental e no ensino médio, vinculadas aos conteúdos curriculares de
cada etapa e modalidade, inclusive por meio do uso de tecnologias da informação
e comunicação, cujo cômputo, para efeitos de integralização da carga horária
mínima anual, obedecerá a critérios objetivos estabelecidos pelo CNE.
§ 5º Os
sistemas de ensino que optarem por adotar atividades pedagógicas não presenciais
como parte do cumprimento da carga horária anual deverão assegurar em suas
normas que os alunos e os professores tenham acesso aos meios necessários para
a realização dessas atividades.
§ 6º As
diretrizes nacionais editadas pelo CNE e as normas dos sistemas de ensino, no
que se refere a atividades pedagógicas não presenciais, considerarão as
especificidades de cada faixa etária dos estudantes e de cada modalidade de
ensino, em especial quanto à adequação da utilização de tecnologias da informação
e comunicação, e a autonomia pedagógica das escolas assegurada pelos arts. 12 e
14 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996” (BRASIL, 2020, grifos do autor).
A edição de documento normatizador em conjunto com os pareceres emitidos
pelo Conselho Nacional de Educação de números CNE/CP nº: 5 e 9/2020
possibilitaram que os sistemas de ensino definissem meios de atuação para o
desenvolvimento das atividades de ensino remoto via TIC. Considera-se o uso das
TIC para o desenvolvimento de atividades didáticas em sala de aula, como um
instrumento inovador, dado o fato de que o emprego dessas ferramentas,
indiretamente democratiza o acesso ao ensino. Porém, a transposição didática de
conteúdos nesta modalidade de ensino é algo desafiador, pois é necessário que
se estabeleça uma metodologia que vá de encontro com as necessidades
informacionais do estudante, ou seja, um ensino com equidade, que torne a
apresentação do conteúdo dinâmica, e que ao mesmo tempo instigue o discente a
participar das aulas.
“[…] muitos professores tiveram que fazer adaptações às
atividades docentes, por vezes fazendo uso da tecnologia para o ensino remoto,
sem necessariamente ter a garantia de que os alunos, ou eles próprios, teriam
tais ferramentas à disposição. Há que se destacar, ainda, que a formação
docente, em geral, não contempla reflexões (aprofundadas) sobre o ensino
não-presencial. Ainda, o contexto do ensino remoto parece intensificar as
jornadas de professores que dividem seu tempo entre trabalho, família, casa e
outras demandas. Finalmente, recortes de gênero, classe, raça, entre tantos
outros reforçam um cenário complexo e estrutural de desigualdades que já fazia
parte da realidade escolar [...]” (FARIAS, SILVA, 2020, p. 229).
A realidade complexa do sistema educacional brasileiro,
torna a atuação docente desafiadora, isto porque, é necessário que este
primeiramente tenha acesso as TIC, e, por conseguinte, passe por um processo de
treinamento que possa auxiliá-lo sobre como transpor didaticamente os conteúdos
da disciplina no ensino remoto. É importante ter em mente que no ensino remoto
por ser mediado pelas TIC rompe as barreiras de espaço, proporcionando um
distanciamento entre professor e aluno, fazendo com que este tenha maior
dificuldade para perceber qual o comportamento do estudante sobre o conteúdo
apresentado. Reforçando assim, a necessidade de se estabelecer metodologias de
ensino que instiguem o estudante a participar das aulas, ou seja, metodologias
que aos poucos possam tornar o estudante protagonista em seu processo de
aprendizado.
Conforme aponta Circe Fernandes Bittencourt (2018) o
ensino de história passou por diversas mudanças ao longo de sua trajetória
escolar, o que, corroborando com o fato de que apesar de as TIC já existirem,
todavia, não eram tão utilizadas como no formato adotado nesse momento de
pandemia.
Ainda de acordo com Bittencourt, o ensino de história
passa por uma ressignificação que envolve a mudança de postura entre a
perspectiva mnemônica “sobre um passado criado para sedimentar uma origem
branca e cristã, apresentada por uma sucessão cronológica de realizações de
‘grandes homens’” (2018, p. 127) para uma nova disciplina, com seus paradigmas
metodológicos, que tentam incorporar uma multiplicidade de outros sujeitos
construtores da nação, como é o caso do ensino de história da África e da
cultura afro-brasileira, dos povos indígenas e das mulheres.
Sendo assim, se a própria metodologia do ensino de
história vem passando por atualizações constantes em busca de melhor explicar e
dar sentidos, o que já é considerado um desafio em aulas presenciais, no
contexto do ensino remoto, este cenário que se coloca em relação ao ensino de
história dentro da perspectiva semelhante à modalidade de educação à distância,
torna a missão de ensinar ainda mais desafiadora.
Isléia Streit (2010), destaca que se o professor no
decorrer de seu processo formativo, no curso de licenciatura, tiver contato com
as vantagens e possibilidades que as TIC’s oferecem, ele certamente, em sua
prática pedagógica, enquanto docente, posteriormente, terá maiores condições de
estimular os alunos na construção de saberes em sala de aula, tornando esta
aula mais dinâmica, em relação não
apenas em como utilizar as TIC’s em sala de aula, mas no conteúdo que está
sendo ministrado.
De acordo com a autora, em uma pesquisa feita tendo como
base geográfica a região Sul do país, onde é realizada uma investigação acerca
das instituições de ensino superior da região que ofertam cursos de
licenciatura em História na modalidade EaD, observou-se que nessas instituições
é fomentada uma cultura do EaD nos gestores, professores, pesquisadores e
alunado, o que contribui para propriciar novas e diversas práticas de ensino
que são características dessa modalidade: “Dessa forma, as ações de Educação a
Distância implementadas, devem criar o perfil docente e discente apto para
ensinar e aprender com qualidade nesse desafiante cenário educacional ao qual
estamos inseridos” (STREIT, 2010, p. 10).
Sendo assim, tomando como base o referido estudo para
discussão sobre a implementação do EaD, podemos pensar de maneira crítica a
relação entre o ensino de história, o contexto de pandemia e as TIC’s, uma vez
que, o ensino à distância está regulamentado no Brasil desde o fim da década de
1990 e os esforços para que essa modalidade de ensino fosse cada vez mais
difundida e que os professores possuíssem formação específica para lidar com
esse modelo de ensino/aprendizagem já são antigos.
Todavia, apesar dessa modalidade de ensino não ser
relativamente nova, é necessário ponderarmos que, a educação presencial, em
todos os níveis, do básico ao superior, ainda é massiva. E por vezes, existe
preconceito em relação ao EaD, com noções e perspectivas de que o ensino à
distância não possui a mesma qualidade que o presencial.
Devemos levar em consideração ainda, que o momento de
pandemia e medidas como as citadas inicialmente, não estão dentro de uma matriz
fundamentada do EaD, mas sim dentro de um contexto de ensino remoto, não
possuindo o mesmo planejamento do EAD. Portanto, o ensino remoto, nos moldes
aos quais se faz presente, é uma adaptação da educação presencial para que
professor e aluno não sejam prejudicados no decorrer do ano letivo. Porém, é
importante observar que pelo fato de vivermos em uma sociedade marcada pela
forte desigualdade social, nem todos indivíduos possuem acesso as TIC’s, e, por
conseguinte, acesso à internet. Fato este que torna a imposição do ensino na
modalidade remota mesmo em tempos críticos para a Educação algo restritivo,
pois desta forma o acesso à educação acaba sendo destinado apenas para quem
possui acesso as TIC’s e à internet indo contra um dos preceitos da
Constituição Federal de 1988 que é o de equidade no acesso à educação.
É certo que muitas instituições de ensino, principalmente
as da rede privada, já conseguiram se adaptar melhor e preparar seu corpo
docente para tais atividades, todavia, não é o que ocorre na maior parte do
país. De acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas, onde
foram ouvidos professores(as) da educação básica de todas as 27 unidades da
federação entre abril e maio de 2020, 65% dos entrevistados afirmam que o
trabalho pedagógico aumentou ou mudou, principalmente envolvendo interfaces e
ferramentas digitais.
Em meio ao contexto pandêmico, é fundamental ressaltar o
papel do professor enquanto agente de transmissão de informações, e, por
conseguinte de auxíliador ao estudante na construção de conhecimento. Não sendo
aquele que detém todas as respostas ou a “verdade absoluta”, mas um agente que
precisa, de antemão, se antecipar e preparar pressupostos e dinâmicas de
ensino/aprendizagem que deverão fomentar a aula no sentido de trazer
dinamicidade e interesse dos alunos.
Para isso, no ensino de História, podemos destacar
ferramentas que podem ser úteis, algumas que já eram exploradas no ensino no
presencial, como é o caso da utilização de filmes em sala, para tratar de temas
históricos e marcantes. Com ferramentas como o Google Meet,
plataforma que está sendo amplamente utilizada em reuniões e encontros
síncronos, por permitir a transmissão de vídeos e áudios em alta qualidade,
quando utiliza-se a aba “Uma guia do Chrome”. Ou até mesmo utilizar o
aplicativo Rave, disponibilizado para aparelhos celulares, que
propicia a projeção de filmes em tempo real, em salas, com possibilidade de
debate e interação.
O Look História é um aplicativo que pode auxiliar
os alunos para retirarem dúvidas para além das aulas, nele os alunos encontram
pequenos vídeos explicativos, que dividem os períodos históricos permitindo ao
estudante consultar aquele que tiver interesse. Outro aplicativo também
gratuito e muito interessante é o Presidentes do Brasil, que
disponibiliza informações sobre todos os presidentes que o país já teve, anos
de mandato e as principais características do governo.
Outra ferramenta que vem sendo utilizada e pode dinamizar
as aulas em relação as atividades propostas pelo docente é o Kahoot,
que permite o professor criar seu próprio quiz em forma de jogo para que
os alunos possam se divertir e, ao mesmo tempo, fixar o conteúdo ministrado em
aula, a ferramenta pode ser utilizada pelo
docente em uma aula síncrona, ou, de maneira assíncrona.
Seguindo essa mesma linha de ferramentas utilizadas para
a verificação de aprendizagem, temos o App Prova, que contém diversas
provas do Enem e de vestibulares de todo o país. Nele o estudante pode realizar
testes, ver como está seu desempenho diante dos demais concorrentes e, ainda
oferece uma análise acerca dos conteúdos que ele deverá ser estudar mais.
Uma maneira de diversificar o ensino/aprendizagem na
disciplina de História também, é utilizar as visitas guiadas aos locais
patrimoniais, culturais e turísticos do contexto local ou regional,
apresentando aos estudantes a experiência do conhecimento da história dos
locais aos quais estão inseridos. Pode-se, por exemplo, passar os links dos
museus para que os estudantes conheçam as instalações, mostras e etc., inúmeros
museus disponibilizaram tours on-line em 360º, sendo possível escolher o
cômodo e visualizar os objetos presentes. Em relação ao ensino regional, também
há a possibilidade do uso de imagens históricas dos locais importantes nas
cidades, disponibilizadas em acervos públicos on-line e a comparação dos
espaços atualmente, para instigar os alunos a pensarem a questão espacial e a
modernização.
Há outras ferramentas gratuitas que auxiliam o docente no
processo de preparação e disponibilização das aulas, como a ferramenta Google
Meet, para as aulas síncronas. O Google Classroom (ou, Google
Sala de Aula) que possibilita a disponibilização de matérias como textos,
arquivos com slides, vídeos e etc., permitindo também que o estudante responda
e poste atividades, facilitando a organização do professor. O Google Forms
(ou, Google Fomulários) que permite a criação de formulários, com possibilidade
de perguntas com múltipla escolha, escolha única e também respostas
dissertativas.
Outra ferramenta que auxilia na organização e no preparo
das aulas, bem como no processo comunicativo é o ClassDojo, que
possibilita a comunicação entre professores, alunos, pais e gestores escolares.
Nele o professor pode criar comunidades com os alunos e registrar os bons
momentos deles em sala de aula, compartilhando essas experiências com os pais.
O que pode também ser utilizado tanto no auxílio para a
comunicação mais rápida com os alunos, quanto para encaminhar atividades,
textos e vídeos não tão longos, é o WhatsApp. A criação de grupos
das turmas, seja com os alunos, seja com os responsáveis, dinamiza a ação
comunicativa entre docente e discente permitindo melhor interação.
Sendo assim, existem ferramentas, desde as mais simples e
popularizadas para o uso em outras ocasiões, até as especializadas, que podem
auxiliar o professor nesse novo processo de ensino/aprendizagem, lembrando,
claro, como já exposto ao início do texto, que a educação está sempre em
movimento e é necessário que as práticas pedagógicas sejam sempre atualizadas.
E ponderando também que nesse contexto de pandemia, com inúmeras dificuldades
tanto para os alunos quanto para os professores, desde o acesso a redes de
internet de qualidade até o processo de capacitação dos profissionais da
educação, esse modelo de aulas remotas se coloca enquanto um desafio a ser
superado. Ou, se não superado, ao menos analisado com maior atenção e cuidado,
para que estudantes e professores não adoeçam na tentativa de alcançar um
padrão que ainda não está bem-posto no horizonte da educação.
Referências biográficas
Agenor Leandro de Sousa Filho, Mestre em Biblioteconomia
pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), Bacharel em Biblioteconomia pela
Universidade Federal do Ceará (UFC), graduando em Licenciatura em História pela
Universidade de Taubaté (Unitau) e em Ciências Sociais pela Universidade
Regional do Cariri (URCA).
Mestra Krisley Aparecida de Oliveira, Professora de
História da Universidade Estadual de Goiás – Campus Sudoeste (UEG), Doutoranda
em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestra em História pela
Universidade Federal de Goiás (UFG), Especialista em História e Narrativas
Audiovisuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e licenciada/bacharela em
História pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Referência bibliográficas
BITTENCOURT, Circe Fernandes. Reflexões sobre o ensino de
História. Estudos Avançados, São Paulo, v. 32, n. 93, p. 127-149, 2018.
Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ea/v32n93/0103-4014-ea-32-93-0127.pdf Acesso em: 20 fev. 2021
BRASIL, Lei 14.040 de 18 de Agosto de 2020. Estabelece normas
educacionais excepcionais a serem adotadas durante o estado de calamidade
pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020; e
altera a Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009. Brasília: Presidência da
República, 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.040-de-18-de-agosto-de-2020-272981525
Acesso em: 23 fev. 2021
BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer
CNE/CP Nº:5/2020. Reorganização do Calendário Escolar e da possibilidade de
cômputo de atividades não presenciais para fins de cumprimento da carga horária
mínima anual, em razão da Pandemia da COVID-19. Brasília, DF: Conselho Nacional
de Educação, 2020. Disponível em:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=14511-pcp005-20&category_slud=marco-2020-pdf&Itemid=30192
Acesso em: 22 fev. 2021
BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer
CNE/CP Nº:9/2020. Reexame do Parecer CNE/CP nº 5/2020, que tratou da
reorganização do Calendário Escolar e da possibilidade de cômputo de atividades
não presenciais para fins de cumprimento da carga horária mínima anual, em
razão da Pandemia da COVID-19. Brasília, DF: Conselho Nacional de Educação,
2020. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=147041-pcp009-20&category_slug=junho-2020-pdf&Itemid=30192
Acesso em: 22 fev. 2021
FARIAS, P. F.; SILVA, L. Ensino em tempos críticos: a criação de um
podcast para a promoção do diálogo crítico docente no contexto da pandemia de
COVID-19. AtoZ: novas práticas em informação e conhecimento. Curitiba, v. 3, n.
2, p. 229-233, 2020. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/atoz/article/download/76147/42602
Acesso em: 12 fev. 2021
STREIT, Isléia
Rössler. A formação do professor de história e as tecnologias da informação e
da comunicação (TICS). In: X ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: O BRASIL NO SUL,
CRUZANDO FRONTEIRAS ENTRE O NACIONAL E O REGIONAL. 2010, Santa Maria – RS. Anais
eletrônicos do Encontro Estadual de História. Disponível em: http://www.eeh2010.anpuh-rs.org.br/resources/anais/9/1279112989_ARQUIVO_artigoXencontrodehistoria.pdf
Acesso em: 22 fev. 2021.
Villas Bôas, Lúcia; Unbehaum,
Sandra. Educação escolar em tempos de pandemia. Fundação Carlos Chagas, 2020.
Disponível em: https://www.fcc.org.br/fcc/wp-content/uploads/2020/06/educacao-pandemia-a4_16-06_final.pdf
Acesso em: 22 fev. 2021.
Alesy Soares Oliveira e Benigna Ingred Aurelia Bezerril
WATCHMEN: O USO DO QUADRINHO COMO RECURSO DIDÁTICO NO
ENSINO DE HISTÓRIA
O presente trabalho tem
como objetivo apresentar algumas potencialidades do uso de história em
quadrinhos no ensino-aprendizagem de História. Para isso, apresentaremos
algumas considerações sobre ensinar História em diálogo com o recurso didático
selecionado, assim como iremos apresentar algumas possibilidades de assuntos
que podem ser abordados a partir de Watchmen.
Este trabalho foi pensado a partir da experiência na disciplina de Seminário da
Linha de Pesquisa III do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte. Na mencionada disciplina, vêm sendo analisadas
e discutidas as experiências históricas e artísticas na produção de Alan Moore.
Embaixo do capuz de Alan Moore
Alan Moore nasceu na
Inglaterra em 1953. Ele iniciou sua carreira com histórias em quadrinhos no
final dos anos 1970. Ele foi autor de obras como V de Vingança, Monstro do
Pântano, A Liga Extraordinária, Watchmen, Neonomicon, Batman – A Piada Mortal dentre outras.
A narrativa da obra Watchmen
se passa no ano de 1985. Os Estados Unidos se encontram enquanto uma nação
totalitária e fechada, isolada do resto do mundo, como está referido em seu
texto de apresentação. Com o avanço das
forças bélicas contidas nas figuras das armas nucleares, assim como também os
super-heróis, o jogo político será recheado entre as superpotências mundiais. A
HQ tem seu início com a visão de Rorschach, um outrora herói, que investiga a
morte do seu colega de profissão, o Comediante. A partir disso, a narrativa
caminha sobre as figuras das duas gerações de heróis mascarados que expressam
suas angústias e abstrações com o pano de fundo da Guerra Fria e conflitos
envolvendo seus lugares no mundo, que se mostra cru e inóspito pelas lentes de
Alan Moore.
Watchmen é uma História em quadrinhos, muitas vezes
considerada como novela gráfica numa pretensa tentativa de diferenciação, que
em todos os casos, foi arrebatadora para sua geração e mais ainda para a
linguagem dos quadrinhos. O seu texto aborda o país Estados Unidos, em situação
de distopia, com caminhos diferentes acerca da Guerra Fria, arranjado em um
mundo de super-heróis. Nesse ambiente, os heróis estão em decadência e seus
papéis na sociedade são questionados. A presença de subtextos dialogando com
temas do mais diversos é uma característica das obras de Alan Moore que
consegue em uma página tratar sobre discussões entre política, metafísica ou
mesmo esoterismo, com uso de linguagens auxiliares como contos, matérias de
jornais ou romance, tudo isso infundido em uma narrativa densa e adulta com
temas bastante caros à nossa sociedade atual e com um final apoteótico e
clássico de nascença.
Resumir a obra de Watchmen é uma tarefa difícil, pois
seria quase inevitável deixar de tratar pontos caros ao objetivo presente neste
texto. Dessa forma, assumindo essa característica, a direção do olhar será
pautada nas possibilidades de usos no ensino de História a partir das
referências presentes na obra supracitada.
Mediante o trabalho com as
obras de Moore, aprofundamos especialmente os estudos acerca de Watchmen, pois escolhemos tal obra para
desenvolvermos um trabalho na disciplina. A partir das discussões sobre Watchmen durante as aulas, nasceu a
ideia de pensar a presente proposta de ensino-aprendizagem em História. Aqui,
podemos ressaltar a importância da aproximação dos conhecimentos produzidos na
academia com o ensino básico. É pertinente pensar, ainda, na importância da
experiência que tivemos com o Programa Residência Pedagógica nos anos de 2018 a
2020, quando ainda éramos graduandos em História. Hoje, incentivados pelo
professor da já mencionada disciplina da pós-graduação e pela trajetória no
Residência Pedagógica, damos ênfase no objetivo de cada vez mais colaborar com
a aproximação desses espaços.
Os quadrinhos como recurso didático no ensino de História
Ao traçar a trajetória da
aproximação das histórias em quadrinhos em sala de aula, Douglas Lima indica
que para além de iniciativas voltadas para a linguagem dos quadrinhos do
Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), as quais não objetivamos
adentrar no presente trabalho, mas que são de grande importância para a
aproximação, “cabe lembrar outros fatores que também contribuíram para tal
cenário. Primeiramente, a crescente presença dos quadrinhos no meio acadêmico”
(LIMA, 2017, p. 152). Podemos afirmar a pertinência da colocação de Lima, pois,
como já comentado, trabalhar história em quadrinhos no meio acadêmico nos deu
impulso para pensar a presente proposta para a sala de aula do ensino básico e
esperamos poder colocá-la em prática em breve ou colaborar para que outros
colegas possam utilizar tal recurso didático.
Destacamos, também, a
importância de pensar a faixa-etária do público o qual pode-se destinar o uso
de tal obra. Pensamos na utilização de Watchmen
em aulas do ensino médio ou na Educação para Jovens e Adultos (EJA).
Por que usar história em
sala de aula? Como esse recurso didático pode contribuir com a construção de
saberes históricos? Quais são as suas potencialidades? Primeiramente, é
essencial pensarmos que ao elegermos um recurso didático, é imprescindível que
o professor domine o conteúdo sobre o qual dará aula, pois:
“Os recursos didáticos são apenas auxiliares
no processo de ensino-aprendizagem [...] cabe salientar que os recursos em si
não são eficientes ou ineficientes, pois para atribuirmos essas características
aos recursos, depende da forma como eles serão utilizados pelo professor”
(BRITO, 2003, p. 19).
Douglas Lima aponta que as
histórias em quadrinhos possibilitam que os estudantes demonstrem maior
motivação em relação aos conteúdos de determinada matéria escolar, ajudam no
desenvolvimento do senso crítico e da leitura de texto e imagem, contribuem
para o aumento ou criação de um hábito de leitura dentre outras
potencialidades. No ensino de História, Lima indica que nas últimas décadas a
utilização das histórias em quadrinhos tem se efetivado gradualmente. Para o
autor, isso se deve, especialmente, devido à noção plural de fontes no meio
historiográfico e pela abertura de utilização de novas linguagens no espaço
escolar (LIMA, 2017).
Além das próprias HQs que
são produzidas objetivando tratar de fatos históricos e exercer papel
educativo, há a possibilidade trabalhar os quadrinhos produzidos para outros
fins, mas que com o direcionamento e auxílio de outros materiais, até mesmo do
livro didático, podem ganhar forma de recurso didático em sala de aula. Para
isso, podemos lançar perguntas externas à narrativa da história em quadrinhos:
quem a escreveu? Quando foi lançada? Podemos traçar o perfil de seu autor e
levantar hipóteses das possíveis influências políticas e sociais e de como tais
elementos podem emergir em personagens e enredos ficcionais das histórias em
quadrinhos. É pertinente investigar e discutir com o estudante o contexto
externo das histórias em quadrinhos, pois, como indica Keliene Silva as HQs
são: “portadoras de discursos carregados de intencionalidades dos grupos onde
são produzidos, assim como buscam canal de diálogo com o público que pretendem
atingir” (SILVA, 2016, p. 148).
Acerca do fazer histórico
e pedagógico em sala de aula, um dos desafios apontados por Maria Schmidt é o
de realizar a transposição didática dos conteúdos e métodos históricos. A
transposição didática do saber histórico, dentre outros aspectos, indica
"procedimentos para
que se trabalhe a compreensão e a explicação histórica. [...] Destacam-se a
problematização, o ensino e a construção de conceitos, a análise causal, o
contexto temporal e o privilégio da exploração do documento histórico”
(SCHMIDT, 2004, p. 59).
Considerando esses
elementos da construção do saber histórico em sala de aula, ao abordar Watchmen é pertinente problematizar a
obra. A problematização histórica pode ser dada pela pergunta mais simples
lançada ao objeto de estudo como, por exemplo, “onde?”, “quando?”, “por que?”.
Além disso, o contexto temporal indica pensar o momento no qual a obra em
questão foi criada, considerando até mesmo o perfil do autor. Essas buscas
podem ser auxiliadas com livro didático que tenha textos sobre o mundo após a
Segunda Guerra Mundial, assim como o professor pode trazer texto de apoio e
pedir pesquisas sobre determinados assuntos que possibilitem a apropriação da
obra por parte dos estudantes, sua análise e possibilidade de responder às perguntas
lançadas.
Coordenando essa discussão
no ambiente escolar, Douglas Lima trata sobre a ampliação do uso dos quadrinhos
em sala de aula. Ele faz um pequeno balanço do histórico que os quadrinhos
enfrentaram com críticas e resistências desenvolvidas ao longo do século XX, no
qual conseguiram resistir, afastando-se do ideário limitador que compreende
essa linguagem como leitura exclusiva de crianças para serem entendidos como
forma de entretenimento de diversos públicos. Quanto ao campo da educação, o
movimento de aceitação e incorporação dos quadrinhos foi consolidado ao final
do século XX ganhando mais força desde então (LIMA, 2017).
Lima, ao citar Vergueiro
(2014), considera que na discussão em relação aos usos dos quadrinhos em sala
de aula existem muitas práticas fortuitas que possibilitam uma boa condução da
aula:
“As HQs aumentam a
motivação dos estudantes para o conteúdo das aulas, aguçando a curiosidade e
desafiando seu senso crítico; a interligação do texto com a imagem, presente
nas HQs, amplia a compreensão de conceitos de uma forma que qualquer um dos
códigos, isoladamente, teria dificuldades para atingir; as HQs versam sobre os
mais diferentes temas, sendo facilmente aplicáveis em qualquer área, além de
apresentarem uma linguagem mais assimilável; a inclusão dos quadrinhos na sala
de aula possibilita ao estudante ampliar seu leque de meios de comunicação,
incorporando a linguagem gráfica à linguagem oral e escrita, que normalmente
utiliza; os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento do hábito de leitura; os
quadrinhos enriquecem o vocabulário dos estudantes; o caráter elíptico da
linguagem dos quadrinhos obriga o leitor a pensar e imaginar, tornando as HQs
especialmente úteis para exercícios de compreensão de leitura e como fontes
para estimular os métodos de análise e síntese de mensagens; os quadrinhos têm
caráter globalizador, trazem temáticas que têm condições de ser compreendidas
sem necessidade de um conhecimento prévio específico ou da familiaridade com o
tema; os quadrinhos podem ser utilizados em qualquer nível escolar e com
qualquer tema” (apud LIMA, 2017, p. 152).
Vilela considera que as
HQs podem ser usadas como documentos históricos no sentido de que elas são
artefatos culturais. Sua característica funciona enquanto uma narrativa, mais
predominantemente visual e, embora também se utilizem de textos:
“Devido a supremacia do texto, que ainda
persiste no meio acadêmico, e também no ensino de História na Educação Básica,
ainda existe algum preconceito em relação a linguagem imagética parte de alguns
historiadores e também certo receio por parte de professores de história, pois
a formação da maioria deles ainda não contempla uma educação do olhar e
enfatiza ainda a leitura de textos, sejam eles historiográficos, didáticos ou
fontes escritas em geral” (VILELA, 2012, p. 33).
A obra Watchmen, com os devidos apoios
didáticos, pode também possibilitar a construção de conceitos junto aos
estudantes. A partir de análises considerando os elementos citados
anteriormente, conceitos podem ser abordados em sala de aula com a devida
participação do alunado na construção e na apropriação dos tais. Por fim,
também apontamos a análise causal como elemento pertinente e possível ao
trabalhar a obra de Alan Moore no ensino básico. Como aponta Schmidt:
“Sem perder de vista a
complexidade dessa questão [da análise causal], é importante possibilitar aos
alunos compreensão de que os acontecimentos históricos não podem ser explicados
de maneira simplista. [...] Muito mais que as determinações causais, é
importante levar o educando à compreensão das mudanças e permanências, das continuidades
e descontinuidades” (SCHMIDT, 2004, p. 60).
Partindo da análise causal
e da consideração de relações de mudanças e permanências e das continuidades e
descontinuidades, ao eleger Watchmen
como recurso didático no ensino de História, faz-se importante buscar a
explicação de determinados contextos de forma plural, buscando compreender
determinados fatos históricos a partir de causalidades encadeadas. Além disso,
a obra possibilidade abordar contextos históricos sobre os quais rupturas e
continuidades, por exemplo, podem ser colocadas em análise, como é o caso do
papel feminino no século XX, considerando as ondas do movimento feminista, a
influência do contexto pós-guerra dentre outros elementos. E é sobre este
assunto que vamos nos deter brevemente a seguir.
Possibilidades Didáticas em Watchmen
Lançada entre os anos de
1986 e 1987, Watchmen se passa em uma
realidade alternativa do nosso planeta. Segundo Ícaro Silva, a HQ foi criada em
um contexto em que:
“Os Estados Unidos vivem um dos momentos mais
tensos e conturbados de sua história, decorrentes de uma política doméstica
equivocada, nos tempos da Guerra Fria, com pouca atenção aos ditos ‘problemas
de casa’ e muito foco na situação internacional” (SILVA, 2019, p. 31).
A realidade paralela da
obra funde ficção e realidade, sendo sua narrativa desdobrada tendo como pano
de fundo eventos históricos, assim como tendo personagens criados a partir de
gatilhos históricos, “sendo assim, sob uma constante ameaça de guerra nuclear e
toda desordem durante o período da Guerra Fria, diversas manifestações sociais
protagonizadas por minorias ocorreram no mundo”. (SILVA, 2019, p. 31)
Mediante tal contexto,
apontamos aqui a presença dos movimentos sociais como pano de fundo da obra. A
exemplo disso, o movimento feminista pode ser elencado para pensar algumas narrativas
criadas por Moore.
Fonte: MOORE, Alan. Watchmen. São Paulo:
Editora Abril, 1999.
O que uma cena, um cartaz
e um diálogo aparentemente despretensiosos em Watchmen podem nos contar? O período da Guerra Fria também foi
perpassado por construções da imagem feminina. Nos Estados Unidos da América, a
imagem da mulher dona de casa, do padrão de beleza e de comportamento feminino
e a exploração de seus corpos era valorizado e difundido pelos mais diferentes
meios de comunicação. Longe de ser o primeiro momento de reivindicação dos
direitos das mulheres, o pós-guerra trouxe manifestações feministas que lutavam
por direitos relacionados ao corpo, à sexualidade, à inserção no mercado de
trabalho dentre outras pautas.
Nesse contexto do
pós-guerra, que também é quando Watchmen
é criada, surge a segunda onda dos movimentos feministas. Entre os anos de 1960
e 1980, dos movimentos feministas começaram a emergir novas reivindicações.
Anteriormente, as demandas diziam respeito à desigualdade de direitos políticos
dentre outras desigualdades sociais, a partir de então, passou-se a questionar
o motivo pelo qual essas assimetrias de gênero ocorriam na sociedade. Com isso,
como indica Melanie Marques e Kella Xavier:
“Podemos perceber que o movimento feminista,
na segunda onda, passa a abordar pautas relacionadas à opressão da mulher, a
sexualidade, a construção cultural de gênero e dominação. O discurso agora
estava focado nas relações de poder entre homens e mulheres, debatendo sobre
questões de discriminação, desigualdades culturais e estruturas sexistas”.
(MARQUES; XAVIER, 2018, p. 5)
Em relação a isso, o
período de guerra era cheio de expectativas, sendo um país cujas imagens
mentais formadas ao longo do fim da década de 1940 e início da década de 1950
eram exclusivamente masculinas, como aponta Ícaro Silva, pensando na ótica da
masculinidade presente no período histórico referenciado em Watchmen:
“Aos homens, heróis no front europeu, todas as recompensas eram
poucas. Linhas de crédito para compra de imóveis e para estudos em
universidades, assim como a garantia de pleno emprego, pois os postos ocupados
pelas mulheres na ausência bélica masculina voltaram a ter seus antigos donos,
relegando às então independentes figuras femininas o retorno ao espaço
doméstico. Era natural, portanto, que os jovens das gerações seguintes fossem
educados para continuarem a ser a cidade sobre a colina que liderava o
progresso do mundo” (SILVA, 2019, p. 24).
Com o crescimento dos
movimentos civis ao fim da década de 1950 e início da década de 1960, um boom do grito de resistência dos
marginalizados ecoa. Assim, os movimentos sociais que apareceram de fundo em Watchmen podem ser canalizados à prática
de ensino pela sua característica de artefato cultural e entre outros efeitos
positivos citados acima correspondentes ao uso de quadrinhos em sala de aula. Coben
destaca sobre os movimentos:
“As características
distintivas do Movimento emergem de uma preocupação central com a autenticidade
pessoal e com o corolário da convicção de que as estruturas do poder social, o
consenso ideológico liberal e o mecanismo cultural formavam múltiplos
obstáculos à auto-realização e à comunidade. A busca da realização acentua
variedades de desacordo e protesto - silenciosos e veementes, públicos e
privados, não violentos e violentos, pessoais e culturais, reformistas e
revolucionários” (COBEN, 1985, p.335 e 336).
Enquanto isso, as mulheres
reagiram prontamente às novas oportunidades disponíveis para elas no mercado de
trabalho e também passaram a atuar com mais voz na sociedade estadunidense,
ocupando um espaço que antes não estavam familiarizadas, possibilitando um
contraponto a realidade estabelecida na mesma no Brasil ou mesmo em tempos
atuais.
Considerações Finais
Em Watchmen podemos considerar uma gama variada de temas, percorrendo
em um sentido mais histórico tanto pelos temas dos movimentos sociais e de
contracultura como a discussão dos papéis de gênero ou mesmo a temática da
violência nos grandes centros. As histórias em quadrinhos podem ser uma
importante ferramenta para o incentivo da leitura e também uma possibilidade
didática para o professor de História fortalecer o pensamento histórico e para
o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. A partir da leitura das
considerações que fizemos neste texto, esperamos poder ter contribuído para as
discussões sobre o uso de histórias em quadrinhos em sala de aula, assim como a
escolha por trazer Watchmen possa
colaborar com o desenvolvimento de propostas com outras HQs enquanto recurso
didático no ensino de História.
Referências
Alesy Soares Oliveira,
graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História pela mesma
universidade.
Benigna Ingred Aurelia
Bezerril, graduada em História Licenciatura pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História pela mesma
universidade.
BRITO, Ana Lúcia Morais de. O ensino de história: outros recursos além
do livro didático. 2003. Dissertação (Mestrado em História). Universidade
Federal de Pernambuco, Recife, 2003.
COBEN, Stanley. O desenvolvimento da cultura norte-americana. Rio de
Janeiro: Anima Produções Artísticas e Culturais, 1985.
LIMA,
Douglas Mota Xavier de. História em quadrinhos e ensino de História. Revista
História Hoje, [S.L.], v. 6, n. 11, p. 1-344, 16 maio, 2017.
MARQUES, Melanie Cavalcante; XAVIER,
Kella Rivetria Lucena. A gênese do movimento feminista e sua trajetória no Brasil.
In: VI Seminário CETROS Crise e Mundo do trabalho no Brasil: desafios para a
classe trabalhadora. Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2018.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora. A formação
do professor de História e o cotidiano da sala de aula. In: BITTENCOURT, Circe
(org.). O saber histórico na sala de aula. 9 ed. São Paulo: Contexto, 2004.
SILVA, Ícaro Andriêr Soares da. A
construção da ideia de masculinidade como falha cultural na sociedade
estadunidense em Watchmen. 2019. 50 f. TCC (Graduação) - Curso de Licenciatura
Plena em Letras/Inglês, Linguagens e Ciências Humanas, Universidade Federal
Rural do Semi-Árido, Caraúbas, 2019.
SILVA, Keliene Cristina da. História
em quadrinhos e ensino de História: diálogos e abordagens. XVII Encontro Estadual de História – ANPUH-PB, 2016. e-ISSN: 2359-2796. Disponível
em: <http:// www.ufpb.br/evento/index. php/xviieeh/xviieeh/paper/ view/3229>.
Acesso em: 24 de abr. de 2021.
VILELA, Marcos Túlio Rodrigo. A
utilização dos quadrinhos no ensino de história: avanços, desafios e limites.
2012. 322 f. Dissertação (Mestrado) - Mestrado em Educação, Universidade
Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2012.
